29 junho 2012

Guaicaípuro Guatemoc - A Verdadeira Dívida Externa

O texto abaixo é uma obra de ficção de Luis Britto García, que por ocasião do Dia de Colombo escreveu "Guaicaipuro Cuatemoc encargos da dívida para a Europa", publicado pelo jornal El Nacional , em Caracas em 18 de outubro de 1990. 

Neste texto ficcional, Britto reflete sobre a dívida da Europa para com a América e uma palavra indígena que poderia reivindicar essa dívida. 

A peça, escrita em forma de carta, mais tarde foi lançado na internet sob o nome de "Conferência de Chefe Guaicaipuro Cuatemoc antes da reunião de Chefes de Estado da Comunidade Europeia", fazendo as pessoas acreditar que um verdadeiro chefe índio falou aqueles palavras em uma conferência internacional. 

O personagem é fictício, a presença indígena na conferência nunca aconteceu, mas o texto contém uma reflexão sobre o tema da conquista e do desenvolvimento da Europa através do uso dos recursos naturais da América, o conteúdo é atual e merece ser lido e divulgado.

Ainda bem que eu não sou a presidenta, porque teria lido essa obra fictícia na primeira reunião mundial e provavelmente apareceria no dia seguinte com a boca cheia de formiga. 

Ravena


Segue o texto:


"Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos, para encontrar os que a "descobriram" há 500... 

O irmão europeu da alfândega pediu-me um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me descobriram. 

O irmão financeiro europeu pede ao meu país o pagamento com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que me vendesse. Outro irmão europeu explica-me que toda a dívida se paga com juros, mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros, sem lhes pedir consentimento. 

Eu também posso reclamar pagamento e juros. Consta no "Arquivo da Companhia das Índias Ocidentais" que, somente entre os anos de 1503 a 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata provenientes da América.

Teria aquilo sido um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!

Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.

Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a arrancada do capitalismo e a actual civilização europeia se devem à inundação dos metais preciosos tirados das Américas.

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução, mas uma indemnização por perdas e danos.

Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva.
Tão fabulosa exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano "MARSHALL MONTEZUMA", para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra e de outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?

Não. No aspecto estratégico, delapidaram-nos nas batalhas de Lepanto, em navios invencíveis, em terceiros reichs e várias outras formas de extermínio mútuo.

No aspecto financeiro, foram incapazes - depois de uma moratória de 500 anos - tanto de amortizar capital e juros, como de se tornarem independentes das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar, o que nos obriga a reclamar-lhes, para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão generosamente temos demorado todos estes séculos para cobrar. 

Ao dizer isto, esclarecemos que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus cobram dos povos do Terceiro Mundo.

Limitar-nos-emos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, concedendo-lhes 200 anos de bónus. 

Feitas as contas a partir desta base e aplicando a fórmula europeia de juros compostos, concluimos, e disso informamos os nossos descobridores, que nos devem não os 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata, mas aqueles valores elevados à potência de 300, número para cuja expressão total será necessário expandir o planeta Terra.

Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para estes módicos juros, seria admitir o seu absoluto fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos capitalistas.

Tais questões metafísicas, desde já, não nos inquietam a nós, índios da América. Porém, exigimos a assinatura de uma carta de intenções que enquadre os povos devedores do Velho Continente na obrigação do pagamento da dívida, sob pena de privatização ou conversão da Europa, de forma tal, que seja possível um processo de entrega de terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

Quando terminou seu discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo uma tese de Direito Internacional para determinar a verdadeira Dívida Externa.

Fontes de pesquisa:

6 comentários:

  1. grande texto querida ravena, os governantes são realmente burros ou o que? se deixam governar, escravizar, roubar e matar o próprio povo por burrice e ignorância, aaf por isso quem é de fora faz o que bem quer do brasil, ooh governantes burros, são levados por lábias de gananciosos.

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    1. só querem encher os bolsos, o povo que se vire.

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  2. Oi Ravena,

    Não se engane! A presidenta não leria esta obra em Conferência alguma. Primeiro, porque ela confessa em público que esqueceu até o título e o tema de um livro "muito interessane", que ela estava lendo. Segundo, porque não tem por objetivo defender povos indígenas. Terceiro, porque o compromisso dela e do seu partido é com o Foro de São Paulo (informações sobre isso disponíveis na net e não nos jornais)e com a Nova Ordem, aplicando muitas vacinas da Fundação Bill e Melinda Gates nos indígenas e no povo brasileiro...

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  3. Apesar de ser ficção... é a mais pura realidade...

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  4. o certo de tudo é que a décadas, nos ensinaram a transferimos a culpa de nossos fracassos para os europeus sem levar em conta de que o passado já não existe mais, e na realidade do presente nada fazemos, assim estamos nesta vila chamada Brasil, para daqui a 500 anos quem sabe transferir a culpa para a NOVA ORDEM de toda a nossa inercia....

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